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Biomimética: copiar a natureza pode gerar bilhões em novos negócios

03/09/2021 - Marcia Di Domenico, da VOCÊ S/A

Ao longo de anos, o homem acostumou-se a olhar para a natureza como uma entidade a serviço da humanidade ou algo distante para ser contemplado. Essa mentalidade, no entanto, está cada vez mais desconectada dos dias atuais.

 Em um tempo em que escassez de recursos naturais, sustentabilidade e tecnologia são temas centrais e os modos de gerir pessoas e negócios já não dão conta de resolver os desafios impostos, uma área do conhecimento ganha espaço apostando na natureza como forma de inspiração: a biomimética. Ela olha para os elementos, processos, sistemas e organismos vivos com o objetivo de criar soluções inovadoras para problemas de todo tipo, dos mais triviais aos complexos; da invenção de um produto à solução que vai fazer uma empresa parar de ter prejuízo. “A biomimética é uma ponte entre a ciência e as demandas contemporâneas do mundo”, diz Alessandra Araújo, bióloga de formação, especialista em biomimética pela Universidade do Arizona e fundadora da consultoria Bio-Inspirations.

 

Apesar da abordagem inovadora, a biomimética não é exatamente uma disciplina nova. Há quase dez anos, atletas de elite da natação já deslizavam na piscina vestindo maiôs feitos com material que imitava a pele de um tipo específico de tubarão. Ao reduzir o atrito do corpo com a água e dar um impulso extra para se deslocarem, o tecido permitia que os esportistas nadassem mais rápido com menos esforço.

 






Outro exemplo surgiu décadas antes de a biomimética ser sistematizada como disciplina: um engenheiro suíço quis resolver um problema real que enfrentava no dia a dia e acabou inventando um material que até hoje facilita a vida de muita gente no mundo inteiro: o velcro. Leonardo da Vinci há mais de cinco séculos já produzia esboços de máquinas voadoras com base na observação da anatomia e do voo dos pássaros. A biomimética começou a ganhar popularidade há pouco mais de 20 anos por meio do trabalho da bióloga americana Janine Benyus, cofundadora do Biomimicry 3.8 e do Biomimicry Institute, que oferecem serviços de consultoria e educação sobre o tema.

 

Embora pouco conhecida no Brasil, a metodologia foi apontada em 2014 pela revista Forbes como uma das cinco principais tendências que vão orientar os negócios do futuro. Um estudo da Universidade Nazarena de Point Loma, na Califórnia, estimou que a disciplina deverá representar 300 bilhões de dólares no PIB dos Estados Unidos e gerar 1,6 milhão de empregos no país até 2025.

 

 

 

Modos de usar

Pelo método desenhado por Janine Benyus, existem duas formas de criar usando a biomimética. A primeira é partir de um desafio ou necessidade real (como filtrar água, fixar objetos em uma superfície ou economizar energia) e investigar de quais estratégias a natureza dispõe para resolver tarefa semelhante.

 

A outra é olhar para determinado fenômeno natural, forma ou função desempenhada por um organismo ou sistema e pensar de que maneira ele pode ser útil e reproduzido na prototipagem de produtos ou soluções. Por isso os treinamentos invariavelmente contam com períodos de imersão em áreas verdes (de praças urbanas a reservas florestais).

 

A metodologia pode ser aplicada tanto em criações tangíveis — um novo produto, ferramenta ou projeto — quanto em coisas intangíveis, como estratégias de gestão em uma empresa. Medicina, arquitetura, transportes e geração de energia são algumas das áreas que vêm desenvolvendo inovações com a bioinspiração.

 

No Brasil, esse mercado ainda é insipiente, em parte porque a retração econômica dos últimos anos levou muitas organizações a cortar investimentos em pesquisa e desenvolvimento. Mesmo assim, startups e empresas com viés de impacto social e inovação começam a olhar para a metodologia como forma alternativa de trabalhar valores humanos sem tirar o foco dos negócios. Seja qual for o caminho, as jornadas criativas usando a biomimética pressupõem trabalho em equipes multidisciplinares e diversas, em que a soma de conhecimentos favorece uma análise mais profunda dos contextos a serem trabalhados e, consequentemente, a inovação. 





É o chamado biomimicry thinking. “Um bom projeto geralmente envolve profissionais vindos de áreas como engenharia, biologia, design e negócios, que trazem saberes e visões de mundo complementares”, diz Ricardo Mastroti, biólogo, mestre na disciplina pela Universidade do Arizona e consultor.

No Brasil, há poucos especialistas habilitados para facilitar jornadas com a biomimética e não existem cursos de especialização nessa disciplina. Algumas faculdades a oferecem na graduação de design, engenharia e arquitetura.

 

Também é possível encontrar cursos livres (online e presenciais) e participar de vivências de imersão em reservas naturais para exercitar o olhar e o pensamento com a biomimética e praticar a prototipagem com ela.

 

Compreendendo organizações como ecossistemas complexos, pode-se buscar na inteligência da natureza inspirações para trabalhar competências e resolver problemas do dia a dia corporativo.

 

“Os valores que hoje norteiam modelos de negócios inovadores e uma nova economia são os mesmos que a natureza usa há milhões de anos em seus processos, como resiliência, descentralização, colaboração e eficiência”, diz o biólogo Ricardo. No meio ambiente há uma floresta de ideias esperando para ser semeada pelas organizações.

 

 

Verde de novo

Os irmãos Pedro e Bruno Rutman, de 29 e 32 anos, conheceram a biomimética como disciplina da graduação em design da PUC-RJ, onde se formaram. Criados na cidade de Lumiar, na região serrana no Rio de Janeiro, o contato com a natureza sempre foi uma realidade e trabalhar com restauração florestal um desejo.